Infraestrutura · 8 min de leitura
A Gororoba da IA e o Delírio Coletivo
No ano passado o Casey Neistat lançou um vídeo sobre o Sora, o TikTok de conteúdo gerado por IA da OpenAI. Ele chamou de "an endless dribble of computer-generated nonsense" o que eu traduzo livremente
No ano passado o Casey Neistat lançou um vídeo sobre o Sora, o TikTok de conteúdo gerado por IA da OpenAI. Ele chamou de "an endless dribble of computer-generated nonsense" o que eu traduzo livremente como "um gotejamento sem fim de lixo gerado por computador" ou apenas gororoba de IA. Assisti e tive aquela sensação de que alguém estava falando em voz alta o que eu pensava há meses.
https://www.youtube.com/watch?v=I1dW-nZqhew
Não sobre o Sora especificamente. É sobre o que está acontecendo de forma mais ampla. Nos posts que vejo no linkedin, nos feeds do instagram, nos videos do youtube.
Até mesmo em empresas, o próprio CEO do Y Combinator Garry Tan entrou em um delírio com IA acreditando que havia criando "a melhor solução do mundo" quando criou o GStack.
Fonte: conta no X do do Garry Tan
O CTO de um amigo dele respondeu:
"Seu gstack é incrível. É como ter o modo Deus ativado. Aposto que mais de 90% dos novos repositórios a partir de hoje usarão gstack."
Deus me livre!!

Um preset de configuração de terminal virou "god mode". 90% de todos os repositórios do mundo. Garry Tan tem credencial técnica real, o CTO amigo dele provavelmente também. E ainda assim o hype faz pessoas inteligentes falarem coisas que não fazem sentido quando você para três segundos para pensar.
Agora imagine quem não tem nenhuma base técnica.
Alguém cria um site com três prompts e na semana seguinte a sai dizendo para todos que é especialista e é "IA first". Explica em painel como IA vai "transformar tudo" baseado em uma semana de uso do ChatGPT. Aceitando qualquer output sem questionar uma linha.
O problema não é a ferramenta.... por enquanto!
O gráfico mostra três curvas. A linha pontilhada cinza é o Efeito Dunning-Kruger clássico: quem sabe pouco de qualquer assunto tende a se achar muito competente, chega num pico de confiança rápido, depois cai quando percebe o quanto não sabe, e só volta a subir com prática real. A linha pontilhada verde é a competência real: cresce devagar, com estudo e experiência acumulada.
A linha laranja é o que a IA faz com isso.

Em vez de cair depois do pico inicial, a confiança se mantém artificialmente alta. O vale do ceticismo, que no DK clássico é o momento em que a pessoa para e aprende de verdade, simplesmente não acontece. A IA preenche a lacuna com respostas confiantes o suficiente para que o usuário nunca sinta que errou. E o gap entre a confiança percebida e a competência real vai crescendo em silêncio...
A Aalto University publicou em 2025 um estudo com um nome interessante: "AI makes you smarter but none the wiser." Todos que usaram o ChatGPT melhoraram nos resultados. E ao mesmo tempo superestimaram dramaticamente o próprio desempenho. O efeito foi mais grave entre os mais experientes com IA, não entre os iniciantes. Quem sabia mais de IA, se iludiu mais.
Um segundo estudo com 666 participantes no Reino Unido encontrou correlação negativa de -0,68 entre uso frequente de IA e capacidade de pensamento crítico. Ou seja, quanto mais você usa IA menos capacidade de pensamento crítico você tem. O mecanismo tem nome: cognitive offloading. Você terceiriza o raciocínio para a ferramenta e o seu "músculo do pensamento" atrofia.
Mas a parte que mais me incomoda não está nesses estudos... Está no que já vimos acontecer com outra droga digital, as redes sociais.
Tem um conceito chamado enshittification, cunhado pelo Cory Doctorow em 2022 e eleito palavra do ano de 2023 pela American Dialect Society. A lógica é basicamente:
- primeiro a plataforma é boa para o usuário.
- depois ela abusa do usuário para servir o negócio.
- depois abusa do negócio para servir os acionistas.
- Então.... morre!
O Facebook de 2009 era genuinamente útil. Feed cronológico, sem algoritmo, você via o que seus amigos postavam. O de hoje é um feed de anúncio com conteúdo intercalado, desenhado para prender atenção ao custo que for. O Instagram virou vitrine. O TikTok é uma máquina de dopamina que os próprios pesquisadores da empresa admitem não entender completamente.
Temos duas décadas de evidência que essas plataformas causam dano real para saúde mental, discurso público, atenção coletiva. Entramos com olhos abertos e fizemos pouco para nos proteger.
Com IA, a escala é maior e o ritmo é mais rápido. Em 2025, mais de 52% de todo conteúdo novo publicado em inglês já era sintético. A Ahrefs analisou 900 mil páginas em abril e estimou que 74% continham conteúdo gerado por IA. O Casey fala sobre "endless dribble" de vídeo, mas já chegou no texto, na música, no artigo acadêmico, nas apresentações corporativas, nas relações interpessoais.
E é um ciclo que tende a se agravar conforme a internet se torna cada vez mais poluída com essa "gororoba de IA". Modelos treinados em dados da internet produzem conteúdo que é indexado, que depois vira dado de treinamento para a próxima geração de modelos. Pesquisadores chamam de "model collapse": degradação progressiva de qualidade à medida que o conteúdo sintético contamina os conjuntos de dados. A internet começa a refletir cópias de cópias.
Também, não estou aqui advogando para o extermínio da IA... Eu sou bastante otimista e aceleracionista. E o mais importante.... Eu uso IA todo dia.
Na Global Cripto, onde sou COO, o time inteiro usa, devs e negócios, de forma interconectada em várias ferramentas. Análise de contrato, documentação técnica, comunicação com parceiros, estruturação de apresentações regulatórias. Virou parte do fluxo de trabalho real de uma exchange, não experimento. Mas aprendemos a fazer isso de forma consciente!
Na minha rotina, uso uma stack que combina Claude, Notion, Granola, Google Calendar e Gmail e um MCP personalizado que criei conectado a uma "base de conhecimento"que se conversam. Termino uma reunião e as tarefas identificadas já foram extraídos pelo Granola e viraram tarefas no Notion. Uma tarefa importante bloqueia tempo no meu calendário já alocando o tempo e planejando quando vou fazer a tarefa. O overhead cognitivo de gerenciar agenda e pendências caiu muito.
Na Nora Finance, onde estou co-fundando uma infraestrutura de stablecoin em real, o problema é genuinamente difícil: modelar os incentivos econômicos do BRS, equilibrar os mecanismos em cenários de demanda e liquidez, entender comportamento financeiro humano sob pressão. Uso IA para escrever simulações, montar cenários e testar hipóteses que levariam meses para eu construir sozinho. Uso também para acompanhar o cenário regulatório de cripto no Brasil e no mundo, que muda toda semana. Em cripto, estar com o modelo mental desatualizado é caríssimo. Sem a IA seria impossível manter a mente afiada quanto ao que está acontecendo
E sim: os diagramas desse post foram criados com Claude, a imagem de capa foi gerada com Gemini, e parte do texto foi refinada com Claude....

A diferença entre quem usa bem e quem se ilude não está no prompt. Está em quem está pilotando.
A acessibilidade das ferramentas de IA criou uma oportunidade sem precedentes para os medíocres conseguirem se disfarçar de autoridade. Alguém passa algumas semanas com ChatGPT, gera uma apresentação polida e se posiciona como estrategista de IA, sem nunca ter encontrado as limitações da ferramenta em escala.
Se você não tem base para questionar a saída, não vai perceber quando o modelo está inventando com confiança. E ele inventa. Com muita confiança.
O ciclo da enshittification das redes sociais levou dez anos para ficar óbvio demais para ignorar. Com IA, o ritmo é mais curto. Achar que dessa vez será diferente porque a ferramenta é boa é exatamente o tipo de raciocínio que o Dunning-Kruger reverso produz.
Fontes
[1] Welsch, R. et al. (2025). AI makes you smarter but none the wiser: The disconnect between performance and metacognition. Computers in Human Behavior. Aalto University. https://neurosciencenews.com/ai-dunning-kruger-trap-29869/
[2] Gerlich, M. (2025). AI Tools in Society: Impacts on Cognitive Offloading and the Future of Critical Thinking. Societies, 15(1), 6. MDPI. https://www.mdpi.com/2075-4698/15/1/6
[3] Doctorow, C. (2023). Tiktok's enshittification. Pluralistic / Locus Magazine. https://pluralistic.net/2023/01/21/potemkin-ai/
[4] Kapwing. (2025). AI Slop Report 2025. https://www.financialcontent.com/article/tokenring-2025-12-29-the-great-digital-decay-new-2025-report-warns-ai-slop-now-comprises-over-half-of-the-internet
[5] iPullRank. (2025). The Content Collapse and AI Slop — A GEO Challenge. Ahrefs data, abril 2025. https://ipullrank.com/ai-search-manual/geo-challenge
[6] WebProNews. (2025). The Internet Is Eating Itself: How AI-Generated Slop Is Quietly Destroying the Web. https://www.webpronews.com/the-internet-is-eating-itself-how-ai-generated-slop-is-quietly-destroying-the-web-while-economists-look-the-other-way/
[7] Fintricity. (2025). The Dunning-Kruger Effect in the Age of AI: When Confidence Replaces Competence. https://fintricity.substack.com/p/the-dunning-kruger-effect-in-the
Publicado originalmente em https://www.linkedin.com/pulse/gororoba-da-ia-e-o-del%C3%ADrio-coletivo-bruno-moniz-mfdrf