Infraestrutura · 9 min de leitura

Onde foi parar o Maestro?

Quando eu fazia o Técnico em Administração no Sebrae, junto do Ensino Médio, tive um professor de artes que era maestro.

Senhor de idade, cabelo branco, mas com a animação de um jovem de 20 anos. Ele sempre convidava os alunos a assistir suas apresentações e chegou até a levar uma orquestra inteira na Escola para fazer uma apresentação. Nesse dia ele mostrou a importância de um Maestro e que ele não fica ali só fazendo movimentos aleatórios com uma vareta. Em uma das aulas ele também nos contou o que era ser maestro de verdade, e eu nunca mais esqueci.

Pra reger uma orquestra, ele disse, você precisa aprender todos os instrumentos. Não precisa ser o melhor tocando cada um, mas precisa entender. Como ele respira, como ele falha, como soa quando está fora do tom. Depois de anos fazendo isso, você ainda precisa se comunicar com mais de 30 pessoas usando movimentos sutis de uma única vareta de madeira. Uma arte!!! Encantadora.

Ele contou que levou mais de 15 anos pra virar maestro. Quinze anos!! É o mesmo tempo que se leva pra virar médico cirurgião especialista. Não é "fiz curso de fim de semana e tô regendo". É década e meia estudando, errando, ouvindo, corrigindo.

Quem não entende disso acha que ser maestro é subir no palanque e balançar uma vareta de um lado pro outro.

Lembrei dessa aula essa semana abrindo o LinkedIn e vendo alguns posts por aqui...


A Vareta Sem Orquestra

No último artigo aqui falei sobre a gororoba da IA e o Dunning-Kruger reverso. Mas tem uma camada que ficou de fora e voltou na minha cabeça quando me lembrei do meu professor.

"Eu não sou desenvolvedor, não sou designer, não sou advogado, não sou economista. Mas a IA pode fazer tudo isso pra mim."

Essa frase, em variações, está em todo lugar!! No CEO que demitiu metade do time porque "agora é tudo IA". No fundador que descobriu o ChatGPT mês passado e já está vendendo curso de "AI strategy". No analista que entrega um parecer de 30 páginas e não consegue defender uma vírgula em reunião.

A pessoa acha que pegou a vareta e está pronto. Não pegou... Subiu no palanque, balança o braço, e o que sai é só barulho desorganizado. Sem entender os instrumentos, a orquestra não toca. Cuspe ruído, uma gororoba de IA.


Cerebro vs Google vs ChatGPT

Em junho de 2025 saiu um paper do MIT Media Lab que cruzou meu feed essa semana: "Your Brain on ChatGPT: Accumulation of Cognitive Debt when Using an AI Assistant for Essay Writing Task". Confesso que abri o PDF, vi a quantidade de gráfico de EEG malucos e percebi rapidamente que ia precisar de ajuda pra digerir aquilo. Não sou neurocientista. Joguei pro Claude, pedi pra ele me explicar o estudo e as descobertas, e fui validando ponto a ponto.

E olha que coisa… é exatamente o argumento desse artigo. IA (bem usada!) é o que me permitiu entender um paper que sozinho eu não conseguiria ler em tempo hábil. Mas pra fazer isso eu precisei saber o suficiente de método científico, de estatística básica e de como funciona um estudo controlado pra questionar o que ele me devolveu. Maestro lendo a saída do instrumento.

E o que o paper mostra é o seguinte…. Os pesquisadores dividiram 54 participantes em três grupos pra escrever ensaios. Um usando ChatGPT, um usando Google, outro usando só o cérebro. Mediram a atividade cerebral por EEG ao longo de quatro sessões.

Fonte: Your Brain on ChatGPT: Accumulation of Cognitive Debt when Using an AI Assistant for Essay Writing Task. Fonte: Your Brain on ChatGPT: Accumulation of Cognitive Debt when Using an AI Assistant for Essay Writing Task.

A conectividade neural do grupo "só cérebro" foi a mais forte. A do Google, intermediária. A do ChatGPT, a mais fraca. Quem usou só a cabeça tinha a orquestra inteira tocando. Quem usou IA tinha metade dos instrumentos desligados.

Mas o número que mais me marcou foi outro. Quando perguntaram se os participantes conseguiam citar uma frase do ensaio que acabaram de escrever, 83% do grupo LLM falhou. No grupo "só cérebro", 89% conseguiu citar corretamente.

Eles literalmente não lembravam do que "escreveram".

Mas o achado que me deixou mais incomodado foi o da quarta sessão. Os pesquisadores trocaram os grupos. Quem tinha usado ChatGPT teve que escrever sem nada. E o cérebro deles não voltou ao normal. A conectividade ficou em estado intermediário, debilitado. Mais fraca que a dos participantes que sempre usaram só o cérebro.

A dívida cognitiva ficou!! Mesmo quando tiraram a ferramenta.

É isso que o paper está medindo: não o efeito da IA enquanto você está usando, mas o que sobra de você depois que você desliga. E o que sobra é menos.


IA não é Substituto Cognitivo

A IA não está ali pra pensar por você. Ela está ali pra liberar carga cognitiva, pra você gastar seu tempo nas atividades que geram mais valor. Você ainda é o maestro!! Você ainda precisa saber o que é uma boa peça, qual instrumento entra em qual momento, quando o violino está desafinado mesmo que ninguém na sala tenha percebido.

Na Global Cripto, onde sou COO, o time inteiro usa IA. Na Nora Finance, onde estou cofundando uma infraestrutura de stablecoin em real, idem. Mas o que faz funcionar não é a ferramenta. É que a gente entende o que está pedindo pra ela.

E meus sócios na Nora são três maestros de verdade!! Como eu digo… galera fera!!

O Luigi Remor , nosso CEO, é o cara que tá no código no dia a dia. Ele começou a Nora ainda na faculdade, quando se recusou a fazer "mais um TCC" e decidiu construir algo real. Hoje rege o produto sabendo exatamente o que cada linha faz, porque foi ele quem escreveu boa parte. O Victor Cioffi , nosso CRO de Revenue, viajou o ecossistema inteiro antes de entrar. Conversou com todo mundo, viu o que existia, viu o que faltava, e só então decidiu que tinha que ser feito, e tinha que ser ele. Conhece o instrumento "mercado" como ninguém. O Jean Everson Martina , nosso CTO, é professor de blockchain na UFSC desde 2017, quando quase ninguém levava o assunto a sério na academia. Quando ele olha um whitepaper, ele vê na hora o código por baixo do marketing.

E eu, como CFO e Compliance Officer, sou economista de formação e aficionado por blockchain e economia desde antes de saber que ia trabalhar com isso. Mas o que mais me marcou em todos esses anos em cripto foi entender que o jogo não é TradFi contra DeFi. O jogo é simbiose. Não sou a favor nem contra regulamentação. Sei o tamanho da importância dela, e sei também onde erraram a mão e onde podem matar a inovação no berço. Essa leitura fina, do que está bem desenhado e do que está mal calibrado, é o meu instrumento.

E pra afinar esse instrumento eu não estou sozinho. Somos acelerados jurídicos do Pinheiro Neto Advogados, a galera mais respeitada no ramo. A combinação da minha experiência prática com cripto regulado, somada ao que aprendo com eles toda semana, é o que faz a diferença na hora de ler uma resolução do BCB e enxergar o que não está escrito (e também, em não cair em fake news achando que o BCB proibiu cripto para remessas rsrs).

Quando a gente usa IA na Nora Finance , cada um sabe ler a saída pelo seu instrumento. O Jean pega um trecho de smart contract e vê onde está o bug que o modelo não enxergou. O Luigi pega um output de código e refaz as três funções que importam de fato. O Cioffi pega um pitch deck gerado e reescreve as três frases que fazem o investidor inclinar a cadeira. Eu pego uma análise jurídica e identifico em segundos onde a IA inventou jurisprudência, ou onde ela leu a resolução errada porque não entende o contexto regulatório brasileiro.

A IA acelera o que cada um já sabe fazer. Ela não está fazendo no lugar de ninguém!! E é por isso que confio no que estamos construindo. Não porque temos as melhores ferramentas. Porque temos pessoas que sabem reger.


O Emburrecimento Silencioso

Quem inverte essa lógica, quem acha que a IA vai fazer o trabalho dele e tá tudo certo, começou errado. E é fácil de identificar: são os que mandam um prompt de péssimo, copiam a gororoba que a IA cuspiu, e entregam como se fosse fruto do próprio trabalho.

Gororoba pura de IA tem cheiro. Tem textura. Qualquer pessoa minimamente atenta sente em três linhas.

Mas o pior nem é a entrega ruim. É o que o MIT mostrou: a dívida cognitiva acumula. Cada tarefa terceirizada sem critério é um músculo que atrofia. A pessoa não percebe. Acha que está mais produtiva, está entregando mais, tem mais material publicado. E na sessão 4, quando a ferramenta não está mais ali, descobre que ficou pior do que era antes de começar a usar.


Como Pegar a Vareta de Verdade

Estude os instrumentos!! Não precisa virar o melhor em nenhum, mas precisa entender. Se você trabalha com produto, aprende código o suficiente pra saber o que é uma arquitetura ruim. Se trabalha com finanças, aprende modelagem o suficiente pra saber quando uma planilha está mentindo. Se trabalha com regulação, lê a resolução inteira, não só o resumo que a IA te deu. Se trabalha com design, aprende os princípios, não só os comandos.

Você precisa saber identificar quando algo está fora do tom.

Usa a IA pra acelerar o que você já sabe fazer, não pra esconder o que você nunca aprendeu. Ela é uma extensão do seu julgamento, não substituto dele. E principalmente, tem padrão. Sabe diferenciar o que é bom do que é gororoba.

Porque o trabalho do maestro nunca foi tocar…

Sempre foi escutar, julgar, dirigir.

Se você não escuta, não julga, não dirige, você não é maestro. Você é só mais um instrumento ruim numa orquestra que ninguém está regendo.

E o palco está cheio de gente assim agora.


Bruno Moniz é COO da Global Cripto Digital Assets e Cofounder da Nora Finance.

Referências:

Kosmyna, N. et al. (2025). Your Brain on ChatGPT: Accumulation of Cognitive Debt when Using an AI Assistant for Essay Writing Task. MIT Media Lab. https://arxiv.org/pdf/2506.08872

Publicado originalmente em https://www.linkedin.com/pulse/onde-foi-parar-o-maestro-bruno-moniz-kmvdf