Regulação · 7 min de leitura
O Subprime de Cripto não precisou de nenhum Governo pra se salvar
Aproveitando a coincidência... Na semana passada, DeFi superou seu maior teste desde a concepção, e na mesma semana saiu uma norma técnica que tenta colocar coleira em parte dessa infraestrutura DeFi aqui no Brasil. O autor é gente boa, gente com quem tive a oportunidade de ter boas conversas na época do DREX. Mas as duas coisas acontecendo no mesmo intervalo de sete dias dizem muito sobre o descompasso entre regulação e realidade. É sobre isso que quero escrever.
Então vamos lá... Voltando para 2008, quando o subprime americano colapsou, o Congresso americano teve que aprovar 700 bilhões de dólares do bolso do contribuinte pra evitar que o sistema financeiro inteiro desabasse. A Lehman quebrou no meio do caminho. A AIG precisou de 85 bilhões da Fed. Fannie Mae e Freddie Mac foram nacionalizadas.
Fonte: Valor Econômico - https://valor.globo.com/carreira/mercado-executivo/coluna/licoes-de-vida-das-pessoas-que-trabalharam-no-lehman-brothers.ghtml ou as ferramentas
Em 18 de abril de 2026, um exploit no bridge do rsETH (da KelpDAO) liberou 116.500 tokens sem lastro, no valor aproximado de 290 milhões de dólares na época. Parte foi parar como colateral em empréstimos na Aave e na Compound. É um buraco proporcional ao rombo de um banco americano médio, como o Silvergate Bank que colapsou após a quebra da FTX.
DeFi Llama: Aave Total Value Locked
Vinte e oito dias depois, em 6 de maio, as oito posições do atacante foram liquidadas, o colateral foi recuperado e o lastro do rsETH foi restaurado.
Nenhum usuário comum perdeu um centavo. Nenhum contribuinte foi acionado. Nenhum congresso votou nada. É sobre isso que eu quero falar... sobre não precisar dos "super heróis do governo" para salvar DeFi.
O atacante usou o rsETH inflado como colateral na Aave, tomou emprestado 82.650 WETH e 821 wstETH e saiu. Esse é o roteiro clássico de uma crise sistêmica. Ativo classificado como bom passa a valer menos do que o passivo que ele garante. É a definição literal do subprime: colateral podre na prateleira do banco.
Em qualquer outro sistema financeiro do mundo, o que viria a seguir era previsível. Corrida bancária. Autoridade central agindo. Dinheiro público entrando. Foi assim com a Inglaterra resgatando o Northern Rock em 2008. Com o BCE comprando títulos italianos em 2011. Com o Brasil autorizando o Banco Central a comprar carteira de banco em dificuldade naquele mesmo 2008.
Dessa vez foi diferente...
Cinco dias depois do exploit, a Aave anunciou a DeFi United: uma coalizão privada de protocolos comprometendo ETH próprio pra cobrir o rombo. Lido entrou com 2.500 stETH. Ether.fi com até 5.000 ETH. Stani Kulechov, fundador da Aave, colocou 5.000 ETH do bolso. Mantle aprovou via DAO uma linha de 30.000 ETH. Ethena, LayerZero, Golem, todos contribuindo.
Fonte: feito pelo autor, com ajuda do ChatGPT :)
A Aave usou a própria governança onchain pra ajustar temporariamente o oráculo de preço do rsETH e liquidar as posições do atacante de forma controlada. O Arbitrum Security Council congelou 71 milhões de dólares em ETH que o ladrão tinha movido pra lá. O Mantle DAO votou. O Arbitrum DAO votou. Tudo público. Tudo on-chain! Tudo auditável em tempo real por qualquer pessoa com acesso à internet. Transparente!
Mas vamos lá, eu uso Aave há mais de 5 anos... Eu fui prejudicado, fiquei com meus ativos travados na Aave. Confesso que não fiquei confortável... Teve bank run. Quando o exploit veio a público, muita gente correu pra sacar das pools da Aave, e a liquidez de ativos como USDC e USDT ficou comprometida por dias. Usuários que não tinham nada a ver com o rsETH ficaram com o dinheiro travado, mesmo com o ativo estando seguro. Liquidez evaporou. É uma diferença entre solvência e liquidez que todo banqueiro conhece, e que o mercado cripto reaprendeu na marra.
Teve também um capítulo judicial (uma verdadeira palhaçada!): credores de processos contra a Coreia do Norte (o Lazarus Group foi apontado como responsável pelo exploit) tentaram bloquear os 71 milhões de ETH congelados. Essa situação foi tão ridícula, feita pelos mesmos advogados que processaram a Pool Together por terem "perdido dinheiro", enquanto a propaganda da Pool Together era de "loteria sem perda". Dessa vez eles processaram, dizendo que o valor que foi bloqueado deveria ressarcir outra dívidas da Coreia do Norte. Imagina isso, seu carro é roubado e passa uma semana com o ladrão antes de ser encontrado. Antes de devolverem o carro, aparece um agiota dizendo que o ladrão estava devendo dinheiro para ele e que seu carro irá pagar as contas disso. Um absurdo, um grande teatro do lado desses advogados.
A Aave LLC entrou com moção de emergência e a juíza autorizou a transferência dos fundos que estavam na Arbitrum para a uma carteira da Aave. O judiciário existiu na história, sim, mas pra arbitrar uma disputa (ridícula) entre agentes privados sobre fundos que a própria infraestrutura cripto já tinha recuperado. Ninguém pediu pro Tesouro americano abrir o cofre e cobrir o rombo.
Eu trabalho na infraestrutura desse mercado todo dia. Sou COO da Global Cripto, uma plataforma B2B e B2C de cripto, hoje sob regra transitória do Banco Central e preparando o dossiê pra solicitar a licença de PSAV. E sou co-fundador da Nora Finance, onde estou construindo uma stablecoin de Real lastreada 1:1 e feita para o DeFi. Lido com Banco Central, com regulador, com auditor. Não tenho ilusão uma romântica com DeFi.
Mas tem coisa nesse caso que precisa ser dita.
Quando um banco brasileiro quebra, quem te garante até 250 mil reais é o FGC. Um fundo privado, sim, mas obrigatório, criado por lei, gerido por estrutura centralizada. Nos EUA, é o FDIC. Esses fundos funcionam, mas têm três limitações estruturais: agem depois da quebra, têm teto por CPF, e existem porque o Estado obrigou.
Fonte: Poder 360
A DeFi United agiu antes que qualquer usuário comum perdesse dinheiro. Não teve teto máximo. E existiu porque os participantes do mercado decidiram que existia. Surgiu em cinco dias, foi executada em três semanas, e superou em compromissos os 118.000 ETH do rombo.
Isso não significa que DeFi é seguro. O exploit aconteceu, e foi grande. A falha estava num único verificador da LayerZero, um ponto único de falha que não devia existir num bridge dessa escala. E o bank run mostrou que mesmo com solvência garantida, liquidez ainda é um problema real, mesmo em sistemas que se vendem como "sempre líquidos". Tem muita coisa pra arrumar.
O que significa é que, pela primeira vez, vimos uma crise financeira de escala real ser resolvida sem precisar de socialização das perdas. Sem comitê de crise fechado. Sem oferta secundária pra capitalizar instituição falida. Sem o congresso de país nenhum votando nada às pressas.
O sistema funcionou. Ele se auto-resolveu. Com regras públicas, com capital privado, com votação aberta.
É fácil olhar pra cripto e ver só o ruído. Preço subindo, preço caindo, golpe, hype. Tem muito disso, é verdade. Mas quem olha só pra superfície perde o que está acontecendo embaixo: uma infraestrutura financeira sendo construída em cima de premissas radicalmente diferentes das que sustentam o sistema que a gente conhece.
Em 2008, o Estado precisou salvar o mercado. Em 2026, o mercado se salvou sozinho. O que vem de próximo? DeFi irá salvar o Governo? A primeira lição é técnica. A segunda é política. E a segunda vai dar muito o que falar nos próximos anos...
Bruno Moniz é COO da Global Cripto Digital Assets e Cofounder da Nora Finance.
Fontes principais:
- Aave Governance Proposal 478 (liquidação das posições do atacante)
- DeFi United Explained, ETH Daily
- Aave anuncia DeFi United Relief Fund, The Defiant
- Aave, Kelp e LayerZero pedem ao Arbitrum DAO liberação de US$ 71M, The Block
- Arbitrum congela fundos do exploit, CryptoTimes
- rsETH Recovery Phase II: liquidações e capítulo judicial, Castle Crypto
- Emergency Economic Stabilization Act of 2008 (TARP)
Publicado originalmente em https://www.linkedin.com/pulse/o-subprime-de-cripto-n%C3%A3o-precisou-nenhum-governo-pra-se-bruno-moniz-qys2f